A Evolução do Tratamento e Ensino do Trauma no Século XXI no Brasil

12 de março de 2020


A Evolução do Tratamento e Ensino do Trauma no Século XXI no Brasil

Por Gustavo Andreazza Laporte.

 

Nos últimos 20 anos, o tratamento e ensino do trauma do Brasil consolidaram-se com a inovação da informação e reconhecimento da importância do atendimento qualificado de vítimas de trauma e emergências clínicas. No entanto, a mortalidade por causas externas ainda continua sendo importante causa letal em nossa população. Por estes fatos é importante saber o histórico da construção e reconhecimento do ensino e atendimento de pessoas vítimas de trauma.

Até os anos de 1976 não havia um atendimento de modo sistematizado de trauma, até quando Dr. James Styner, um cirurgião ortopédico de Nebraska – EUA, sofreu um sério acidente aéreo com sua família e sentiu “em sua própria pele” a necessidade de melhorar a abordagem desses pacientes criando o ATLS (Advanced Trauma Life Support). Logo, em 1978, a NAEMT (Associação Nacional dos Técnicos em Emergências Médicas) criou o PHTLS (Pre-Hospital Trauma Life Support) como complemento ao primeiro programa de ensino de trauma. Esses cursos transformaram de forma significativa o aprendizado e refletiram na sistematização do atendimento e um melhor atendimento de vítimas de trauma em todos os níveis. Felizmente, ambos já estão próximos de suas décimas edições, sempre revisando conceitos baseados na medicina baseada em evidências e provocando mudanças no atendimento como o uso da hipotensão permissiva, o uso do ácido trenaxêmico no manejo do choque, entre outros, diminuindo a morbi-mortalidade dessa patologia.

No Brasil, a primeira liga do Trauma foi fundada em 1992, na FCM-UNICAMP, sob a liderança do Prof. Mário Mantovani, que incentivou a criação das ligas por todo o território brasileiro. A criação das Ligas do Trauma do Brasil deveu-se pela necessidade dos próprios estudantes de medicina em melhorar o ensino e pesquisa do trauma em suas instituições, que se apresentavam deficitárias na ausência das mesmas. Entre 1992 e 2000, poucas ligas foram criadas, até que, em 2003, o Comitê Brasileiro da Ligas de Trauma – CoBraLT – foi criado oficialmente com a divulgação de seu estatuto redigido principalmente em conjunto com a FMC-UNICAMP e a FFFCMPA (atual UFCSPA), fornecendo o incentivo para a criação de diversas Ligas de Trauma no território brasileiro.

Essas ligas, compostas principalmente por alunos interessados na melhoria do aprendizado e pesquisa no trauma, e influenciados pelos acadêmicos de outras faculdades que já possuíam a mesma em sua instituição, foram o ponto fundamental na propagação das mesmas no Brasil. Esse movimento voluntário, emotivo e de uma força descomunal influenciou as instituições de tal forma que muitas criaram Disciplinas de Trauma e Emergência em suas grades disciplinares, capacitaram professores, formaram grupos de pesquisa, forçaram a criação de residências em Cirurgia do Trauma e Emergência, ajudando na consolidação desta área de conhecimento. Importante também salientar que as Ligas de Trauma do Brasil, em muitas instituições, foram as ligas pioneiras dos acadêmicos, trazendo um modelo de ensino inovador e um modo impar de interação entre acadêmicos, professores e comunidade.

Uma liga de trauma, na atualidade, possui aulas teóricas e práticas e cursos ministrados para seus próprios ligantes, para a comunidade acadêmica e externa (serviços de pré-hospitalar, bombeiros e comunidade). Também tem linhas de pesquisa, onde seus ligantes muitas vezes descobrem seus “dotes” científicos, levando a formação de novos mestres, doutores e professores. Há as ações na comunidade na prevenção e atendimento no trauma. Assim como ocorre a interação dentro da instituição acerca do tema trauma e uma grande produção de conteúdo online em redes sociais para a sociedade, sempre buscando inovar na forma de passar conhecimento.

Os alunos egressos das ligas, já formados, deram o início a uma segunda onda, pois no Brasil a regra é que os primeiros empregos dos médicos sejam nas portas das emergências. No entanto, como estavam capacitados, motivados e muitos já terem participado do processo da criação das Ligas em suas instituições inovando seu cenário acadêmico, viram a necessidade de irem em frente e ajudaram a consolidar a Cirurgia do Trauma, como subespecialidade da Cirurgia, reconhecida pela resolução 1.973/2011 do CFM (Conselho Federal de Medicina) e a Emergência Médica como especialidade médica em 2016 através da grande influência da ABRAMEDE (Associação Brasileira de Medicina de Emergência), reconhecida pela resolução 2.149/2016 do CFM.

Por fim, pode-se afirmar que as Ligas de Trauma no Brasil foram um marco influenciador no ensino e atendimento de pacientes vítimas de causas externas. Esse movimento levou a criação de agremiações de alunos interessados inter e trans-institucional no tema e que participaram ativamente da consolidação. Os acadêmicos egressos salientam-se no meio médico, seja pelo reforço curricular que tiveram nesta atividade voluntária, seja pelo interesse criado na área. Pode-se dizer que o atendimento a vítimas do trauma no Brasil foi realmente inovado e melhorado, pois muitos ligantes são hoje professores, chefes de serviço, membros de sociedades, como a ABRAMEDE e SBAIT (Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma) e outras, ou apenas, e o mais importante: médicos mais capacitados nas portas de emergência, fazendo o melhor por nossa sociedade.

 

As informações aqui explanadas não retratam a opinião deste comitê ou de seus membros, apenas a do colunista.

 

Dr. Gustavo Andreazza Laporte
Acadêmico fundador da Liga de Trauma da UFCSPA – Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Antiga FFFCMPA)
Estatutário e fundador do COBRALT
Coordenador Médico do Núcleo de Ensino Permanente do SAMU 192 Porto Alegre
Preceptor de Cirurgia Geral e Cirurgia Oncológica do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre
Especialista em Cirurgia Geral e Cirurgia Oncológica
Mestre e Doutor em Ciências da Saúde pela UFCSPA
Autor do site: www.historiadamedicina.net,
Instagram: @historiadamedicinaecirurgia, @laportegustavo

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