Queimaduras

3 de julho de 2021


QUEIMADURAS

Segundo o Ministério da Saúde (MS), as queimaduras são a segunda maior causa de hospitalização por motivos acidentais em nosso país. Em 2018, 20.605 crianças com idade de zero a 14 anos foram hospitalizadas por esse motivo e em 2019, o número aumentou para 21.023. Em 2017, 217 crianças (0-14anos) morreram após queimaduras e, desse total, 81 tinham entre um e quatro anos de idade (37%). Em 2018, esse número foi de 200 crianças (com 48% destas tendo de 1-4anos).

Estes casos, de acordo com o MS, são principalmente decorrentes de escaldamentos (manipulação de líquidos quentes, como água fervente) e situações de violência doméstica. No Brasil, as queimaduras representam um grande agravo à saúde pública. Algumas pesquisas apontam que a maior parte ocorre nas residências das vítimas e quase a metade das ocorrências envolve a participação de menores de idade. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 320 mil crianças morrem anualmente por queimaduras.

No mês de março de 2020 foram adotadas medidas de isolamento social no Brasil como forma de conter a rápida disseminação do novo coronavírus, exigindo a reorganização do dia a dia das famílias e adaptação a uma nova rotina. Segundo a a nota de alerta divulgada em Julho de 2020 pela Sociedade Brasileira de Pediatria, foi observado aumento da incidência de queimaduras durante este período de quarentena, relacionado ao uso de álcool, substância que tem sido amplamente usada para a higienização de mãos, superfícies e compras ou objetos que chegam da rua.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras este acidente cresceu 25% após início da pandemia. A maioria dos traumas não intencionais é prevenível, basta que os responsáveis tomem providências antes que os fatos aconteçam, portanto a melhor maneira de assegurar um ambiente saudável e seguro é a orientação e conscientização dos cuidadores.

A importância da prevenção de lesões por queimaduras não se apoia somente na frequência com que elas ocorrem, mas, principalmente, na possibilidade de provocar sequelas estéticas, funcionais e na dimensão emocional. Ainda segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, é essencial redobrar os cuidados com a presença do álcool a 70% no domicílio para prevenção de acidentes, especialmente com crianças, e ressaltam o detalhe de que a chama é praticamente invisível após a combustão do álcool em gel e a vítima acaba percebendo somente quando a queimadura já está acontecendo.

COMO SÃO CLASSIFICADAS AS QUEIMADURAS DE ACORDO COM A PROFUNDIDADE DE ACOMENTIMENTO?

  • Primeiro grau: Também chamadas de superficiais, decorrem da lesão da epiderme, a parte mais superficial da pele, e têm como processo de cura a reparação. Clinicamente, se caracterizam por vermelhidão, calor local e dor, sem formação de bolhas. Um exemplo é a queimadura solar. Esse tipo de lesão não requer ida imediata ao hospital, sendo que este deve ser procurado apenas se outros sintomas estiverem presentes.

FIGURA 1: Queimadura de primeiro grau.

Referência: https://www.mdsaude.com/dermatologia/queimaduras/
  • Segundo grau: Também recebem o nome de queimaduras de espessura parcial e decorrem de lesão da epiderme e de parte da derme em diferentes níveis de profundida, um tecido mais profundo da pele, tendo como processo de cura a restauração. Caracterizam-se por uma pele avermelhada, com inchaço, bolhas e superfície úmida, e dor mais intensa. As superficiais tem tendência à cicatrização em até 21 dias enquanto as profundas podem demorar mais para cicatrizar e deixar marcas significativas.

FIGURA 2: Queimadura de segundo grau.

Referência: https://www.tuasaude.com/grau-da-queimadura/
  • Terceiro grau: São as queimaduras de espessura total, que surgem por lesão da epiderme e de toda a derme, podendo acometer camadas ainda mais profundas de ossos e músculos. São feridas translúcidas, meio esbranquiçadas e com aspecto de cera. Essa já é aquela queimadura que forma uma superfície seca, inelástica, por vezes semelhante a um couro, que não apresenta dor. Gera lesões deformantes, com processo cicatrial intenso e necessidade de enxerto para reparação.

FIGURA 3: Profundidade das queimaduras

Referência: https://www.mdsaude.com/dermatologia/queimaduras/

 

REGRA DOS 9

Podemos classificar também as queimaduras pela extensão através da avaliação da percentagem de superfície corporal queimada (SCQ). Essa é determinada pela Regra dos Nove. Entenda:

O corpo do adulto é dividido em regiões que representam 9% (ou múltiplos de 9%) da superfície corporal total. Para crianças, a cabeça corresponde a uma porcentagem maior e os membros inferiores correspondem a uma porcentagem menor. Para essas, quando maiores que um ano, deve-se subtrair 1% do valor da cabeça para cada ano, somando 0,5% para cada perna. A SCQ é mais bem estimada pelo conhecido Diagrama de Lund-Browder, veja:

FIGURA 4: Regra dos 9 nas crianças e no adulto.

Referência: ATLS 10ª edição.

 

 REPOSIÇÃO DE LÍQUIDOS EM PACIENTES QUEIMADOS

A quantidade de líquido a ser reposta no paciente segue a Fórmula de Parkland em 24 horas, sendo que metade do volume total estimado deve ser administrada nas primeiras 8 horas após a queimadura e o restante deve ser feito nas 16 horas seguintes.

Cuidado com o déficit ou sobrecarga volêmica!!! O ajuste da reposição deve ser pautado pelo débito urinário com o objetivo de 0.5 mL/kg/hr para adultos e 1 mL/kg/hr para crianças com peso inferior a 30kg.

 

LESÕES DE VIAS AÉREAS

Devemos sempre estar atentos a sinais que indiquem que a vítima possa apresentar dispneia após um incêndio. Se qualquer um dos sinais de alerta estiver presente, é mandatório a ligação ao número de emergência para avaliação hospitalar. Os sinais de alerta estão listados abaixo:

  • Queimaduras no rosto ou pescoço;
  • Chamuscamento dos cílios e dos pelos nasais;
  • Pontos pretos ou lesões na garganta da vítima;
  • Tosse com catarro escurecido;
  • Rouquidão;
  • Vítima confusa;
  • História de confinamento no lugar do incêndio ou explosão.

 

DICAS PARA A PREVENÇÃO DE QUEIMADURAS

  • Afaste crianças de fogos de artifício, balões e fogueiras, com cuidado redobrado em festas juninas;
  • Também esteja atento para líquidos quentes, principalmente na época do famoso “quentão”, deixando a bebida no centro da mesa, longe do alcance dos menores;
  • Para limpeza, prefira o álcool em gel ao invés do álcool líquido;
  • Mantenha as crianças longe da cozinha e especialmente do fogão. Também não passe roupas ou seque os cabelos perto de crianças, mantendo utensílios guardados fora dos alcances dos pequenos;
  • Em caso de bebês pequenos, durante o banho sempre coloque primeiro a água fria e sinta a temperatura da banheira com sua mão inteira dentro da água, espalhando os dedos e mexendo a mão por toda a extensão do recipiente;
  • Evite brinquedos elétricos ou que exijam baterias e tomadas, principalmente no caso de menores de oito anos;
  • Verifique instalações elétricas e eletrodomésticos, substituindo objetos antigos e isolando fios adequadamente;
  • Evite o uso de “Benjamins” ou “Ts”;
  • Use tampas, fitas adesivas ou esparadrapos para proteger tomadas de crianças ou animais domésticos;
  • Antes de consertos em casa, desligue a chave de energia geral e prefira sempre o serviço de um profissional eletricista;
  • Desligue o chuveiro antes de mudar a chave de temperatura;
  • Não coloque objetos metálicos dentro de equipamentos elétricos;
  • Guarde fósforos, isqueiros, velas, álcool e demais produtos inflamáveis em locais trancados, longe do alcance de crianças e de ambientes com fogo;
  • Nunca jogue álcool sobre chamas ou brasas nem utilize-o para cozinhar;
  • Retire os aquecedores portáteis do alcance de crianças;
  • Instale detectores de fumaça em todos os cômodos da casa;
  • Evite exposição prolongada ao sol, principalmente das 10 às 16 horas, e utilize filtro de proteção solar;
  • Evite fumar, principalmente deitado e dentro de ambientes fechados.

 

O QUE FAZER EM CASO DE QUEIMADURAS?

  1. Em primeiro lugar: é essencial que você se mantenha calmo!
  2. Se a roupa estiver em chamas: instruir a vítima a deitar e rolar no chão e se possível envolver a roupa com um casaco ou toalha ou cobertor para abafar. Jamais deve sair correndo! Atenção: Caso o paciente tenha sido vítima de trauma, essa conduta não deve ser orientada, mas sim manter a imobilização da vítima até a equipe de transporte chegar.
  3. Devemos interromper do processo de queimadura, debaixo de água corrente fria (não é gelada) por vários minutos com grande quantidade de água com ducha ou mangueira por 20 a 30 minutos, sem colocar qualquer tipo de produto sobre a queimadura.
  4. Nas queimaduras químicas, deve-se remover a substância lavando com grande quantidade de água por pelo menos 20 minutos. Não utilizar agentes químicos neutralizantes.
  5. Devemos seguir com a remoção de roupas e acessórios do paciente (joias, colares, aneis, pulseiras, piercings, próteses…) para não prejudicar a circulação sanguínea.
  6. Se houver roupa grudada na região da queimadura, não remova, apenas corte o excesso ao redor da lesão.

7 .Para reduzir a intensa dor, principalmente nas queimaduras de segundo grau, é correto cobrir a ferida com pano limpo, de forma delicada. Queimaduras em face, entretanto, não devem ser cobertas.

  1. As bolhas devem ser mantidas íntegras, nunca rompidas por leigos ou em casa!

IMPORTANTE:

  • A suspeita de ingestão de substância corrosiva é uma emergência médica!
  • Nas queimaduras elétricas não toque na vítima antes de desligar a energia elétrica e busque socorro imediato porque em geral são quadros graves!

 

O QUE FAZER CASO EU PRESENCIE UM INCÊNDIO?

 

  • Crie uma estratégia de saída de emergência e um ponto de encontro fora do ambiente para todos os envolvidos no incêndio se localizarem;
  • Se arraste embaixo da fumaça para evitar intoxicação e toque nas portas antes de empurrá-las, pois se estiverem quentes outra saída deve ser procurada;
  • Se o fogo se espalhar por sua roupa, deite no chão e role de um lado para o outro rapidamente; e se possível envolver a roupa com um casaco ou toalha ou cobertor para abafar e jamais sair correndo.
  • Nunca volte a um local em chamas e ligue para um número de emergência apenas após encontrar-se em ambiente externo afastado do foco do acidente.

 

 

QUESTÕES

 

  • Qual é a porcentagem de área queimada em um paciente adulto com queimaduras do segundo grau, que comprometem toda área anterior do tronco, toda área anterior dos membros superiores e membros inferiores?
  1. 27%
  2. 36%
  3. 40%
  4. 45%

 

  • Baseado na 10ª edição do ATLS e de acordo com a fórmula da Parkland, utilizando os dados da questão anterior, qual seria a quantidade de cristaloide a ser infundida nas próximas 24 horas, sabendo que é um homem de 75 kg?
  1. 6750 mL
  2. 8010
  3. 10800
  4. 13500 mL

 

  • Qual é o grau de uma queimadura esbranquiçada, seca, inelástica e indolor?
  1. Primeiro grau
  2. Segundo grau
  3. Terceiro grau
  4. Quarto grau

 

  • Qual das alternativas abaixo representa um sinal de alerta de acometimento de vias aéreas superiores?
  1. Confusão
  2. Queimadura de terceiro grau
  3. Tosse seca
  4. Vítima de queimadura por eletricidade

 

REFERÊNCIAS

Criança Segura Brasil. Casa Segura, Criança Protegida[ Internet]. Disponível em: http://www.sejus.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2020/05/3.pdf. Acesso em 03/05/2021.

Criança Segura Brasil. Como prevenir queimadura. [Internet]. Disponível em: http://criancasegura.org.br/categoria-dica/arearisco/queimadura/?. Acesso em 03/05/2021.

Maria Helena Varella Bruna. Prevenção de Queimaduras. [Internet].

Drauzio Varella. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/dermatologia/. Acesso em 03/05/2021.

Ministério da Saúde do Brasil. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras [Internet].

Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2012. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_tratamento_emergencia_ . Acesso em 03/05 /2021.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Prevenção de queimaduras em tempos de COVID-19 [Internet]. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_ upload/ 22630b-NA_-_Prevencao_Queimaduras_tempos_Covid19.pdf.Acesso em: 03/05 /2021.

Sharon Henry, MD; Karen Brasel, MD; Ronald M. Stewart, MD. ATLS – Advanced Trauma Life Support. American College of Surgeons; 10ª edição, 2018.

PINHEIRO, pedro. Queimaduras: Graus, Complicações e Tratamento. Disponível em: https://www.mdsaude.com/dermatologia/queimaduras/. Acesso em 16/06/2021.

REIS, manuel. Queimadura de 2º grau: como reconhecer e o que fazer. Disponível em: https://www.tuasaude.com/grau-da-queimadura/. Acesso em 16/06/2021.

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